domingo, 27 de setembro de 2015

Autora Desconhecida!




Um aglomerado de pardos marcham de um lado à outro do pátio de concreto indiferente. 
O sol queima suas costas e fervem seus miolos já transtornados. Seguem sua marcha com olhares distantes e vagos, bocas de dentes amarelos e falhos, rostos pálidos e andares indecisos.
No canto um pequeno espaço por onde entram seus familiares, tristes e desesperançosos de melhora por parte destes rapazes. Quanta humilhação até ali, nesse castelo moderno de puro concreto e ferragens se sepultarão as esperanças de um futuro digno de estudos, carreira, dignidade, saúde e integridade física. Mas isso não vem mais ao caso aqui, "os ferros, trincas e fechaduras enormes marcam e indicam bem seu propósito, encarcerar."
Uma mãe, depois de quase um ano sem ver seu filho caminha a passos lentos. Parece que em seus pés todo o peso de um mundo inteiro a segura. Ela olha para céus e vê logo acima as guaritas com policiais fortemente armados e pensa, porquê de tanta segurança, quem está lá dentro é seu filho tão amado! E os de outras mãezinhas também, são só rapazes confusos...
A medida que vai andando se recorda de tudo que passou até chegar ali, as noites de sono em claro esperando seu filho chegar da rua, os telefonemas suspeitos dos amigos, a polícia militar à porta, os amigos de balada de má fama e o principal o seu filho que ela conhece como ninguém.
A jovem mãe observa calada outras mães iguais a ela, com a mesma dor e bem mais tolerantes. Ela não, é orgulhosa e tem direito de ser assim, fez o impossível para que seu filho tivesse de tudo nessa vida.
Chegou a hora da revista intima, a agente lhe manda tirar as roupas e a pobre mãe já quase sem forças é estrupada pela vergonha do sistema do carcerário. Senta e levanta três vezes, sem calcinha de frente e de costas sob o olhar atento de uma mulher que com certeza não deve ter filhos, pelo menos não como o seu. Pronto põe suas roupas devagar vendo o olhar fuzilante de quem a também condena, sabe que está sozinha, hoje , amanhã e sempre.
Passa uma porta, duas, três, quatro e em corredores escuros pequenas janelinhas  pode-se ver as cabecinhas circulando lá dentro. Qual deles será o seu tão amado e querido filho, qual deles, todos eles...
Entrega os documentos ao agente que lhe olha com malícia, abaixa e cabeça e entra ao som de uma grande porta de aço se abrindo a sua frente. A mãe vê um clarão de luz que lhe cobre todo o rosto, mas essa não é a luz que transmite esperança, com certeza essa não é.
Com as mãos cansadas de carregar sacolas com algumas coisas de comer que seu filho gostava em casa ela espera. Calma, ela não pode ultrapassar a risca amarela, seu filho tem que vir buscá-la. Um, dois, três até que entre os mais altos dali ela avista seu filho assustado pela sua presença, afinal são quase 365 dias sem vê-la. Um abraço terno os envolve, a mãe vê e constata que ele sofre, porém calada se mantém, ele escolheu esse destino, agora é só... desculpem não acho palavra adequada para isso.
Sorrisos, lembranças, piadas, novidades de tudo se conversa entre eles. 
Ali tem de tudo, estelionatários, assassinos, traficantes, ladrões, todo tipo de psicopatia conhecida e todo tipo de mãe e pai.
Para acabar de descrever o dia dessa mãe, um fato lhe chamou a atenção, um pai presidiário brinca com seu filho com uma bexiga feita de camisinha. Ela reflete por alguns segundos, essa camisinha poderia ter melhor utilidade. Seria menos um ou uns no futuro sendo um número de inscrição no sistema carcerário. São os dois extremos, as contradições ao vivo da vida.
A mãe de olhar vago escuta o sinal da saída, abraça seu único filho homem que deveria ser o seu protetor e amigo e parte de volta para sua terra, sua casa... 
Pensando consigo, pronto ano que vem eu volto, ela não sente saudade e nem tem vontade de voltar. Seu filho agora é feito, sabe se virar sozinho. 
Ele não é nenhum coitadinho não, pensa a mãe tristemente.

Relato de uma mãe de presidiário

                                                           


                                               Autora desconhecida

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